9 de ago de 2010

Elegantes e indiscretas Meninas.


  Por Paulo Souza*


Do lugar de onde escrevo vejo uma cidade estranhamente iluminada. São flashes de holofotes; painéis em neon; fracas lâmpadas em prédios antigos; faróis de carros iluminando seios, pernas e malhados dorsos descobertos; cachimbos ardendo pela brasa do crack. Uma cidade fria. Fria por não ter o costume de sentar em suas portas; fria por sua atual dolorosa temperatura de sete graus que morde e racha lábios entreabertos; fria por não conhecer suas próprias entranhas. Todas as cidades que não se conhece apresentam-se com um quase eterno grau de frieza.  O frio que se tem em São Paulo deixa a cidade com certa aparência acinzentada, mas também os múltiplos olhares coloridos que percorrem inúmeros caminhos revelam uma cidade do mundo e para o mundo com seus elegantes edifícios de construções italianas do início do século XX marcados sem dor, mas pelo prazer e pela paixão do picho, do esguicho. Uma cidade de muros décor impregnados pelo vai-e-vem das trinchas e sprays como se fossem intermináveis Riveras coloridos. Cidade de personagens onde transitam muitos Bayardo San Román, Ângela Vicário e Santiago Nasar. Todos íntimos de Márquez. São inúmeras as suas faces, como as dos meninos e meninas do Largo do Arouche; da Paulista que não diz bom dia ou boa noite e que não pede desculpas; do autorama do Ibirapuera que ronca motores e ejacula seus combustíveis nas madrugadas frientas muitas vezes sem os agasalhos devidos. São Paulo me parece familiar quando tomo como exemplo os gêneros do Largo do Arouche: dura poesia concreta e elegância indiscreta também encontrada nas esquinas do Reduto buscando roncar seus motores e ejacular seus combustíveis sustentáveis.
Diferentemente de São Paulo, Belém emana quentura não somente pelos seus rios quarenta graus, mas também ao sentar a noite em suas portas observando o vai-e-vem da vida alheia. Falatórios de línguas úmidas não afiadas pelo cheiro da chuva que perdeu sua pontualidade e que sempre chega inesperada levantando fumaça do asfalto quente, mas pela tradição gritada pelos saudosos de cidade que insiste em ser capital de província. Verde Portal desbotado que abriga maliciosamente as quentes e úmidas elegantes e indiscretas meninas do Reduto urrando por uma cidade monetária atravessada pelo vai-e-vem de rodas de pés de borrachas misturados com mendigos, pedintes e flanelinhas que não guardam quase nada. São verdadeiros malabaristas de esquinas que a usam em busca de alguma saída. Saída que muitas vezes não ultrapassa os limites de marquises que abrigam os já não tão meninos e meninas. Acima do concreto, outra minoria com os devidos agasalhos espreita através de aparentes moçárabes uma conciliação entre as culturas interessadas no ejacular de seus combustíveis. Os troncos humanos debruçados sobre janelas de caronas importados negociando o alimentar do dia seguinte são faladamente observados. Não roçam suas línguas na Língua de Camões e nem sempre gostam de ser o que são ou de estar onde estão. A morena faceira agora é loira, ruiva, mulato, malhado, branco, michê, negra e índia como sempre foi. Noturnamente “montada” e linda. Diurnamente descuidada. Maquiagem não.
Cidade prostituída pela textura de seu tempo acolhe em suas esquinas, em suas marquises, arranhas céus, praças, condomínios e mangueiras o saciar de seus meninos e meninas, sendo que muitos já um tanto longes desse tempo. Alguns trafegam em seus pés de borracha importados. Outros, com seus seios, pernas e dorsos iluminados pelos faróis provincianos são maliciosamente negociados. Adiante mais quantos agasalhados pela arquitetura da celulose e outros nada guardando o que já não se pode estacionar em vias. Acima e abaixo as línguas afiadas continuam sua espreita a observar os troncos debruçados.  Aspectos mil, entendimentos vis de uma cidade que caminha com sua vida como se fosse a aleijada hipócrita que insiste em destruir a vida de Leona. Se hoje o poeta cruzasse novamente a esquina da Ipiranga com a São João seu coração não seria mais o mesmo, nem tão pouco a sua Língua se renderia as portas faladeiras que respiram a fumaça quente do asfalto banhado por uma impontual água que não chega mais às duas horas da tarde. Simplesmente se renderia a sambódromos que buscam seus tempos, o esplendor de suas vidas e suas sepulturas. Cidades vis, experiências mil.

*Mestrando do PPGARTES da Universidade Federal do Pará/2010.

REFERÊNCIAS
BILAC, Olavo. Língua Portuguesa. In: Poesias. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1964.
MÁRQUEZ, Gabriel Garcia. Crônicas de uma morte anunciada. Rio de Janeiro: Record, 2006.
MORAIS, Frederico. Crônicas de amor a arte. Rio de Janeiro: Revan, 1995.
SCARPELLINI, Vincenzo. San Paolo: desenhos e prosa de uma cidade. São Paulo: Publifolha, 2009.
www.letras.terra.com.br/nacao-zumbi/acidade
www.lingua.caetanoveloso.letrasdemusicas.com.br
www.sampa.cacetanoveloso.letrasdemusicas.com.br  
www.youtube.com/results?search_query=leona+a+vingativa&aq=f

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