8 de ago de 2010

cidade abismo ou lexotan

                                                                                                                                            Luciana Magno



Ao alvo errado, acerto. Sem leões nem corações de galinha. Não tocam Caetanos mudos, tudo é difuso nos últimos dias de julho, agosto, setembro. Uma gota quase leite escorre morna entre as pernas quase tremulas, quase tímidas, quase. O sexo, a mão, a mira, o disparo... O silencio tão obvio quanto seu próprio impacto não intencional. Crianças quando pulam de edifícios voam para além da consciência suicídio? Quantos erros escondem películas no escuro? Quantas redundâncias tão tão urbanas? Memória? Não me venham com museus.

Por ora não me interessa a cidade, seu colonialismo pós-moderno. Não me interessa sua ordem, seus trajetos nem destinos. Minha casa paira no ar e daqui toda cidade parece igual. Trago de todas elas cumplicidades que cochicham a noite inteira enquanto tento dormir, em todas consigo comprar lexotan em uma farmácia barata usando a receita da avó com alzheimer e ainda em todas tenho a nítida certeza que bastaria estar fixa ao chão para entorpecer de si.

Mas minha casa paira no ar e estou fora dela diante um grande abismo. Deparo-me encantadoramente abrigo para homem triste em noites cinza. Canto o mantra o vôo alto vale a queda enquanto tento convencer a mim mesma de tamanha façanha altruísta. Minha casa paira no ar perdida em pessoa cidade montanha russa. O abismo sedutor, a fala. Então eu escuto. No estomago a adrenalina desejada e perseguida no perigo do arranha-céu, por trás dos edifícios, nos labirintos negros. Vertigem. Imã.

Em suspensão observo a cidade abismo, a dificuldade de reconhecer familiares e amigos, a vagância errante emplacando acertos ocasionais, alterações de personalidade e senso crítico, problemas com ações rotineiras, ansiedades, agitação, desconfiança. Ilusão. Dou um riso sacana e imagino que se o foco dessa quase crônica não fosse a cidade poderia ser o alzheimer da minha avó. Tento retomar e lembro que tomei um lex. Memória? Esqueço que o esquecimento também é forjado, e a redundância cada vez mais habitual.

Mas minha casa ainda paira no ar (frio na barriga). O Vôo alto vale a queda. Que se soltem os pássaros proibidos. Então eu escuto.



*Texto apresentado à disciplina Arte no Espaço Urbano.

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