9 de ago de 2010

A Cidade em Trânsito


Walter G. Rodrigues Junior

 
Cinco da matina “acorda moleque” tá na hora de levantar pra ganhar o trocado. Deco levanta sonolento, mais um dia se inicia e não dá para perder tempo a viagem até o trabalho é longa. Os cinco irmãos menores ainda dormem. Deco toma um banho gelado “água de poço”, depois esquenta em uma pequena panela amassada a água pra fazer o café “bom que hoje tem”, toma um gole “puta que pariu” não tem açúcar, vai assim mesmo.
 
Cinco e meia Deco sai de casa, ainda está escuro, mais ele não pode perder o ônibus Icuí Guajará Presidente Vargas de cinco e quarenta e cinco, o próximo só às seis e meia e vem entupido de gente. Até a parada Deco leva uns dez minutos “no pique”, ainda bem que ele conhece a malandragem.

O ônibus está chegando à parada e Deco atravessa a pista correndo e fazendo sinal para o motorista “ufa na hora”. A carona é garantida o motorista sabe que Deco é trabalhador, ele senta no final do ônibus, último assento, mesmo lado da porta de descida, a cadeira da janela, sua televisão ligada no programa favorito “a cidade em trânsito”.

A viagem é longa Ananindeua – Belém, Deco já está acostumado, até a Praça da República dura no mínimo uma hora e meia. Cenas urbanas se passam diante de seus olhos enquadradas em sua janela favorita “pela janela vejo fumaça vejo pessoas, na rua os carros no céu o sol e a chuva...”, e a viagem continua, ele observa uma certa familiaridade no rosto das pessoas que entram ao ônibus, são quase as mesmas pessoas de todos os dias, todos se reconhecem, ninguém se fala, seria o ônibus um não lugar?

Avenida Almirante Barroso “até que enfim”, Deco se ajeita na cadeira para melhor visualizar as meninas do colégio Paes de Carvalho com suas saínhas plissadas, na parada do conjunto Costa e Silva. O ônibus já está lotado não entra nenhuma delas “que pena”, mas tudo bem, ainda há muito o que se observar em sua janela móvel da cidade.

Belém amanhece com um movimento intenso, ainda não deu seis e meia, parece que a cidade não dormiu, Deco não se admira mais com o fluxo pulsante da metrópole, ele faz parte dessa dinâmica, o ritmo frenético da cidade combina com o seu cotidiano. Carros, motos, ônibus e vans disputam espaço na avenida, acompanhados por uma trilha sonora de buzinas e roncos de motor “coisas de cidade grande”.

Ônibus em movimento, Deco observa pela janela a paisagem urbana passando muito rápido diante dos seus olhos, às vezes mal dá para diferenciar um outdoor de uma fachada tudo fica achatado. “quanto mais rápido o movimento, menos profundidade as coisas têm, mais chapadas ficam, como se estivessem contra um muro, contra uma tela. A cidade contemporânea corresponderia a este novo olhar [...] a paisagem urbana se confundindo com outdoors. O mundo se converte num cenário, os indivíduos em personagens. Cidade-cinema. Tudo é imagem”* diz Nelson Brissac Peixoto.

Uma família de moradores de rua dorme em frente ao supermercado Almirante em São Brás, sobre jornais e papelões, uma mulher, três crianças e um homem se agasalham ocupando um espaço de pouco mais de um metro quadrado. As pessoas transitam como se lá não houvesse ninguém, estão invisíveis à olho nu, Deco observa a cena com indiferença “já vi esse filme”.

É quarta-feira, dia de peixe no restaurante popular, “melhor chegar cedo pra garantir o almoço”, ainda não é nem sete da manhã e Deco já está pensando no rango. Uma cena chama a atenção na subida da Avenida Presidente Vargas, um gringo alto, branco, com cabelos e barba ruiva, vestindo bermuda e camisa de tecido estampado, aparentando ter uns cinqüenta anos de idade caminha abraçado com Katerine Sheyla, um travesti muito conhecido no Bar do Parque “parece que a noite foi longa”.
 
Finalmente Deco chega ao seu destino. Salta na parada de ônibus em frente a Lojas Americanas na Avenida Presidente Vargas, “valeu motora”, atravessa a rua correndo e já vai marcando seu território “aqui patrão pode estacionar”. Deco é flanelinha e seu ponto é na Praça da República em frente ao Instituto de Ciências das Artes (ICA) da UFPA, conquistar este espaço foi difícil e levou tempo, mas Deco é virado.

Hora do lanche “lá vem o cara do completo”, um copo de suco e um salgado por R$ 1,00 “segura aí, depois te pago”. Enquanto come Deco não descuida do estacionamento, a qualquer momento alguém pode chegar ou sair, ele têm que auxiliar pra garantir o trocado. Começou mais um dia de trabalho.

 
Texto apresentado à disciplina Arte no Espaço Urbano
 
 
* PEIXOTO, Nelson Brissac. O Olhar. Texto: O Olhar do Estrangeiro (org.) Adalto Novaes 6ª reimpressão p. 361

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