1 de ago de 2010

Coletivo 76_Satélite Ver-o-Peso

Coletivo_76_Satélite_Ver-o-Peso*

Eliane Carvalho Moura

Meu olhar de cidade é fragmentado. A rotina do coletivo 76 (Satélite Ver-o-Peso) se confunde com a minha, dia a dia, de parada em parada, 17h...
Sobe...
Passar pela roleta é difícil...
Lotado...
Achar um lugar... a primeira tarefa. Um lugar. O coletivo 76 teoricamente é um não-lugar, mas que se faz lugar durante 120 minutos do meu dia e do de tantos outros. O 76 é um “lugar" da cidade, dinâmico, autônomo e conectivo que referencia uma cidade caoticamente organizada, espremida, enlatada, estuprada de sons, odores e olhares desconfiados.
Entorpecido pelo calor meu pensamento divaga...

Parada 1


“Para chegar à João Alfredo você pega o Pedreira ou Sacramenta-Nazaré na frente do Cinema Nazaré e desce na frente do Cinema Palácio...” A Belém de 1986 era assustadoramente excitante, caminhar pelas ruas totalmente anônima, se perder em plena São Jerônimo... era fantástico!  Ir paquerar na Feira do Açaí... Naquele tempo podia... todo esse clima de “primeira vez” era recheado por conselhos, “presta atenção no sinal”, “cuidado com ladrão”, “segura bem a bolsa”, “não fica perguntando muito porque ladrão sente o cheiro de quem é do interior”. Nos meus 13 anos cheguei à cidade grande. Alenquer era o meu lugar, e lá, naquela época, não tinha ônibus, nem semáforo, tinha um cheiro gostoso de leite às 7h, peixe na brasa às 12h, café com pão e manteiga (cabeça de touro) às 17h, sentar na calçada às 20h para olhar as estrelas e contar os “aparelhos” (satélites visíveis a olho nu).

Parada 2


Consigo sentar, tenho um longo caminho até minha casa, posso ler um pouco, olhar a cidade com um pouco mais de atenção, tarefa comum nos coletivos – olhar a cidade passando. Meu pensamento é interrompido...  uma batida alta,  tuts, tuts, tuts, que pára e se acomoda ao meu lado...
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“por favor... o senhor não tem fone de ouvido?” minha pergunta é mental, sufocada pelo tuts, tuts, tuts...
O ir e vir frenético, na fluidez ou torpor do trânsito impregnado pelo som insuportável do tuts, tuts, tuts, som de periferia, marginalizado e identificatório de uma parcela marginal (marginalizada) da população... “Porra! Já inventaram o fone de ouvido!!!!” ironicamente Yoko Ono (1)  fala dos sons que aprendeu a ouvir e a interpretar.... Lennon me salve... as entrevistas de Ulrich têm que ficar pra depois. Tuts, tuts, tuts... “tu vais até o satélite?”... “não” resposta seca de quem sabe que esta incomodando............................................. tuts, tuts, tuts ........................................................................................................................................
Chove, a janela embaçada, meus pensamentos a respeito da cidade ainda são assim... embaçados. A longa avenida com sua trilha sonora perfeita, buzinas, conversas publicas de outros que se sentem e fazem do 76 , naquele momento sua casa, seu lugar. Ninguém se incomoda com o tuts tuts tuts, faz parte do movimento.

Parada 3


Ufa! Levantou... o vale da benção É uma benção!... o tuts, tuts, tuts se distancia, agora a minha ordem se instala... calmaria.... somente o som do motor velho, as conversas, as buzinas, o cheiro da chuva.... hummm.... chamo novamente Yoko e Ulrich para uma conversa.


*Texto apresentado apresentado à disciplina Arte no Espaço Urbano.
* Imagem copiada de:  http://buracosdabaltazar.zip.net
(1) Obrist, Hans Ulrich. Entrevistas: Volume 1. Cobogó, Belo Horizonte, MG: Inhotim, 2009. Entrevista com Yoko Ono, pg.  31 a 52.

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